quarta-feira, julho 26, 2006

queria

passa a brisa gelada de novo pelo rosto. insiste ela em fazer lembra tudo que é vivo...concluo que só o que não se pode tocar tem tamanho dom ou poder de criar sentimentos repentinos.(estúpida e óbvia, por natureza, conclusão). e sinto o ar em movimento fino e elegante misturado com as outras coisas que eu sinto abaixo da camada da pele e me pergunto porque nasci humana. Se são todas naturais coisas, emaranhados de energia, energia.. não queria braços, umbigo joelhos toda essa dor e todo o desejo. queria ter nascido vento. brisa ar ventania. ou fogo. laranja azul laranja vermelho azul. queria ter nascido som. barulho ritmo tom. eu poderia ser muita coisa. mas não. fico aqui com meus suspiros saudades vontades. humana, demasiadamente.

terça-feira, julho 11, 2006

palavras

não peça às palavras que recuem
que elas não tem o dom de voltar atrás.
uma vez traduzidas em som
pertencem ao espaço
e a toda e qualquer interpretação.
e todo esforço se torna em vão
não apaga não reduz não controla
seu efeito,
não sei, não tem
dono nem destino.

esquece amarga aguarda.

manhã

o dia já tinha acordado há algumas horas mas ele nem ela não. o som estridente e estupidamente chato do despertador estraga a brincadeira de dormir. ele estica o braço e aperta todos os botões possíveis, exceto o que desliga o dito cujo
- o do lado, do outro lado, diz ela.
silêncio.
ela se vira de lado dando as costas para ele. e ele já sabe o que fazer. roça a barba mal feita e ela se diverte. mais um dia com alta probabilidade de ser alegre. ele veste a calça xadrez e a camisa rosa,cabelos que dançam marchinhas de carnaval e sai apressado.volta, joga um beijo e bate a porta. ela ainda se enrola nos lençóis e tenta se convencer que o relógio está errada e que na verdade ela ainda nem dormiu. levanta, toma a única coisa que ainda resiste a solidão da geladeira - um iogurte de ameixa, que ela odeia - e se veste.
caminha até o ônibus lotado e uma janela aberta insiste em permitir que uma brisa fria entre e lhe acorde o rosto. ela fecha os olhos e pensa que a realidade também pode ser deliciosa. e sorri.

quarta-feira, julho 05, 2006

teme

por algum tempo eu sabia aonde ir. sabia mesmo.conhecia os caminhos e criava os desconhecidos. sorria fácil e inventava regrinhas.
até pulava de vez enquando. quase nunca, admito, mas pulava sempre que conseguia. tinha torcida e duas mãos.
e eu sabia aonde ir, sabia como ir.
agora já não sei.
vejo a transpondo as regrinhas que criei. e me permito felicidade. já não tenho mais aonde ir, mas ela já reaprendeu a pular. e não teme. nunca teme.

terça-feira, julho 04, 2006

não cinza

hoje eu enterro a poesia. morte a vida
palavras dadaístas mal diagramadas. mal rimadas. arrancadas da sua adorável função. recolocadas em alguma sem significância posição. talvez duchamp o faria glorioso, mas a reles condição presencial torna a imagem iniciante.
maldita obrigação de finale. nada grand.
pequeno, muito pequeno . ignorante. sujo . besta . maldito final.
sentimento perecível.
hoje eu sou o vazio, o famoso vazio.
me falta a companhia . ansiedade . melodia . arrepio . alegria . ciúme . cena.
e me falta tanto que não sei se algo ainda sobra.
já existem vermelhos outros
e agradecimentos.
perece. e renasce.
em outro corpo. outros olhos. outras cores. outras flores.
me faço tristeza
e me danço cítrica.
hora de renascer não cinza.